segunda-feira, 17 de novembro de 2008

No escurinho do cinema...

Nada mais clichê que ir ao cinema com namorado ou paquera. 

Um amigo meu ocasionalmente me aborda, todo empolgado, para contar que vai ao cinema no dia tal com fulana, sendo fulana a paquerinha da vez. Poxa, que bom! E qual a grande novidade por trás dessa notícia?  Mas essa é a novidade. É? Então tá.

Particularmente, nunca gostei muito de ir ao cinema acompanhada, por quem quer que fosse. Principalmente não namorados ou rolos. Gosto de prestar atenção nos filmes e, do jeito que os ingressos andam caros, me sinto lesada caso não consiga fazê-lo. Como tenho o attention span de uma samambaia plástica, amigos tendem a me distrair. E paqueras ou namoros-em-fase-inicial tendem a alterar o foco de atenção,  ainda que por excelentes motivos, de forma ainda mais incisiva e profunda, trocadilhos à parte. 

Sempre me perguntei porque tamanha empolgação em ir ao cinema com seus parceiros. Tudo bem, é escurinho. OK, as outras pessoas têm mais no que prestar atenção. Mas ainda é um local relativamente público, e gente fofoqueira existe em todo lugar. Especialmente quando a gente não quer.

Por tudo isso, me surpreendi quando me vi ansiosa por ir ao cinema pela primeira vez com minha "pessoa especial". Mesmo temendo não conseguir assistir o filme direito - para piorar, iríamos com amigos - não cheguei a me importar muito. Confiei nela, confiei em mim, e não me decepcionei. Nem me arrependi.

Com toda a minha amargura de cinéfila, tinha me esquecido do quão agradável pode ser asssitir um filme no cinema bem agarradinha. E, agora que lembrei, espero nunca mais esquecer de novo - é o tipo de coisa que merece ser feita sempre que possível.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Canção da Discórdia

Bem que eu queria poder postar a letra de uma bela canção de amor aqui hoje. Mas, como não cheguei a tomar parte do processo criativo propriamente dito, receio que não seja direito meu postar aqui qualquer coisa que tenha relação com tal obra de arte.

Gostaria de deixar bem claro que não foi por falta de vontade que não mereci ter minha assinatura junto à da outra autora da canção. É que não me pareceu certo me intrometer no talento astronômico de terceiros. Afinal, sou uma reles aprendiz; é injusto esperar que grandes escritoras desacelerem seu raciocínio apenas para me dar a oportunidade de acompanhar as idéias. Tola que sou, me atrevi a acreditar que seria necessário discutir para chegar a conclusões óbvias, como "dor rima com amor", "saudade rima com vontade", entre outros chavões tão exaustivamente repetidos do cancioneiro romântico popular brasileiro. Até mesmo ousei crer que minha opinião poderia ser de alguma valia.

Felizmente soube manter minha humildade e parei de insistir. Afinal, ainda estou muito longe de poder me considerar uma boa escritora: a estrada ainda é muito longa, mal comecei e ainda tenho muito o que aprender. Seria óbvio esperar que escritoras de tão grande talento e carreiras tão longas não precisassem de minha ajuda. Eu apenas ensombrearia o brilho que não me pertence, nem nunca pertencerá.

É preciso conhecer seu lugar, afinal.

De toda sorte, aproveito ainda para me prontificar a engolir meu aparentemente enorme ego e compor, em dupla com alguma outra pessoa, essa tal canção apaixonada. Mas, por favor, designem-me um parceiro de nível similar ao meu. Porque não sei se aguento a emoção de novamente compor junto a alguém de incomensurável talento e incomparável humildade.

[/ironia]

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Improvements

Uma das coisas que sempre me encantou em ensinar é poder acompanhar a evolução dos alunos. Desde que eu comecei a dar aulas particulares, achava lindo quando comparava o desempenho da pessoa no primeiro dia de aula e o dos últimos dias e constatava a melhora. Acho que é por isso que eu insisti nessa idéia - a princípio louca, já que sou extremamente tímida - de ser professora.

Eu ainda não tinha sentido isso aqui no meu trabalho. Poucos alunos tiveram aula comigo mais de uma vez, e, os que tiveram, raramente demonstravam grandes improvements de uma aula pra outra. Nesses casos, costumava ser mais reposição. Claro que eu tenho uma ou duas alunas "de estimação", mas não é a mesma coisa.

Agora eu posso me considerar realizada no meu trabalho. Logo na minha primeira semana, peguei uma aluna meio problemática para dar reposição. E uma das primeiras coisas que ela me disse foi, "odeio inglês e só estudo por obrigação". Pensando nisso agora, me foi impossível não lembrar da discussão pós-"Escritores da Liberdade", quando tia Eliana falou da frustração de ouvir de um aluno dizer, "não gosto disso!". Na hora em que ela me disse isso, me deu um aperto no peito, porque senti que ia ter dificuldades.

Então, recentemente, essa mesma aluna marcou outra monitoria, igualmente para reposição. E, para minha surpresa, ela disse que adorou a aula. E, de fato, a aula foi excelente, modéstia à parte. Duas horas voaram como se fossem vinte minutos. E marcou a próxima, para hoje, não porque precisasse de reposição, mas porque estava achando divertido aprender. E, na aula de hoje, novamente o tempo voou. E marcamos uma próxima. E ela me disse que está começando a tomar gosto por essa história de aprender inglês. E o melhor é notar que, de fato, ela está aprendendo.

Em todas as entrevistas de emprego que fiz em cursos de inglês, uma das últimas perguntas sempre foi "Why do you want to teach english?'. E a resposta, invariavelmente, era "Because I'd like to help people improve themselves". E agora eu sei que era a resposta mais certa que eu poderia dar. Porque a sensação é ótima.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Chachipén*

E a porta do ônibus se abriu, e dele desceram cinco ciganas, completamente paramentadas.

Uma delas se aproximou, tomou minha mão e, olhando bem fundo nos meus olhos, me perguntou se eu gostaria de saber o que o destino me reserva. Agradeci a oferta, mas me senti compelida a recusar. Que graça teria saber de antemão o script da minha vida?





*: Segundo fontes não muito confiáveis, chachipén significa "verdade" em Romani, a língua cigana.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Pessoas estranhas

Adoro gente estranha. Gente estranha inspira, instiga, provoca as idéias que, de outra forma, correriam desarrazoadas por aí, afobadas e mal comportadas que são. Às vezes, é um trejeito, um tique nervoso que transparece sem que o observado se dê conta. De outras, é difícil precisar o que me desperta a atenção, mas sinto que há algo ali que valha a pena.

Ela usava camisa branca e calças pretas, mas seus contrastes não paravam por aí. Os pés descalços pareciam inchados, talvez por causa dos enormes saltos, que jaziam abandonados ao lado do banco em que estava sentada. Falava ao telefone e gargalhava, mas o riso morria em seus lábios - seus olhos permaneciam sérios, até mesmo marejados. Era uma menina chuvosa em um dia ensolarado. Ria, e mexia na barra da calça. Ria, e roía as unhas. Ria, mas era nítido que queria chorar.

Estava sentada como se no sofá de sua casa. Tão à vontade que, em dado momento, jogou-se para trás e deitou. Os cabelos louros, antes arremessados em seu rosto, agora espalhavam-se amarelados pelo banco amarelo da faculdade.

Parecia tão indefesa, tão carente de afeto, que me deu vontade de me aproximar para ouvir o que dizia. Não tive coragem. Temi que se afastasse, me achando estranha demais para merecer sua atenção.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Olhares

Me olhou com olhos de carência e pediu-me que fizesse algo que, sinceramente, eu não estava muito disposta a fazer, mas não pude dizer não. Recolhi minhas coisas e fui atender seu pedido, ainda que receosa. Me sentia constrangida, envergonhada, tímida. Era algo que eu estava acostumada a fazer, desde muito cedo, mas não com três pessoas ao mesmo tempo. Ainda mais três mulheres, aliás, três meninas, tão jovens.
Três pares de olhos me encaravam ansiosos. Não sabia o que fazer, não conhecia suas expectativas, não estava preparada. Permiti que guiassem o momento. Os olhares me seguiam, tão perdidos quanto os meus. Elas não queriam tomar o controle. Elas esperavam que eu as levasse, que eu ensinasse, que eu dissesse o que fazer. As rédeas da situação teimavam em fugir ao meu controle, e seus olhares tornavam-se reprobatórios, à medida em que o meu esquivava-se.
Conversamos um pouco. Olhos risonhos, quando o diálogo começou a fluir. Conversamos sobre muitas coisas: o dia-a-dia, namorados, livros, música, piadas. Ficamos à vontade, rimos, nos divertimos. Meu olhar não mais desviava dos delas. Senti confiança. Me senti segura. Dei a elas o que queriam, e elas quiseram mais, mas nosso tempo acabou. Ficou para a próxima.
Depois, encontrei-me com Michael, que me perguntou como foi a aula. "We just couldn't stop laughing", eu disse. Ele me olhou com interrogações nos olhos. Eu devolvi um olhar misterioso. As alunas passaram pela janela do RC e acenaram. "It was good, then. I guess.", ele disse. Também acho, teacher. Foi uma aula divertida. Mas, nem que me paguem o dobro do salário eu repito a dose semana que vem.

sábado, 1 de novembro de 2008

Diálogos insólitos 2

- Nossa, a sua é enorme!
- É porque você não viu o tamanho da minha.
- Vocês querem que eu me retire?
- Não precisa, a gente vai ali pra varanda...
- Não.
- Pro banheiro? Ou, sei lá, seu irmão tá em casa? A gente pode usar o quarto dele...
- ... você trouxe o notebook pra eu te mostrar o tamanho da minha?
- Ué, mas só funciona pelo computador é?
- Claro!
- Me mostra pela webcam depois, então!
- Webcam pra mostrar a lista do MSN? Tá maluco?!