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quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Monstro

Detesto caminhar pelas ruas de meu bairro sozinha depois que anoitece. Sempre fica algo no ar, algo que não sei bem descrever, mas que me causa uma impressão horrível.

Chamem de paranóia, mas sempre me sinto observada.

Esta noite não foi diferente. Minha escolta usual me abandonou à própria sorte, e lá fomos nós andando do trabalho para casa, apenas eu e meu anjo da guarda. Não fazia sentido pegar um ônibus, porque é só um ponto de distância. Demoraria mais do que os cinco minutos usuais.

Quando entrei na minha rua, a sensação começou.

É um formigar na nuca que sempre me aflige quando estou em uma situação de perigo iminente. E, ao dobrar na esquina, foi como se mil agulhas entrassem no meu corpo.

A rua estava escura, tão escura que mal enxergava os contornos das casas. Não sei dizer se realmente estava assim ou se era só minha imaginação.

Apertei o passo. E ouvi, distintamente, sons de passos atrás de mim, correndo sobre as folhas secas. Fui para o meio da rua, com medo das sombras da calçada. Um carro passou e me fez mudar de idéia. Voltei para a calçada.

Então um farfalhar me sobressaltou. Uma força maior que a minha me fazia entreabrir as pernas, senti algo atravessando. Corri.

Corri como se minha vida dependesse disso. Corri, e deixei naquela calçada escura meu nêmesis e o que sobrou de minha dignidade. Àquela altura, a possibilidade de ser atropelada não me incomodava mais. Morrer por um fusca seria mais honrado.

Afinal, nada pode ser mais vergonhoso que morrer devorada por um camundongo de rua.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

The Quiet World

O mar está escuro, prenhe da tempestade que em breve há de desabar. As nuvens são de chumbo, contra um céu azul muito branco, muito cinzento. É como se o céu e as nuvens trocassem de lugar, trocassem de cor. O vento sussurra, suave como as carícias dos amantes prestes a serem surpreendidos; no entanto, logo torna-se agressivo, rude e cadenciado, como o ribombar dos tambores de guerra, e sopra para longe folhas, papéis, mágoas e medos.

A praia está vazia.

A praia está vazia, e eu não consigo parar de olhar para ela. As areias de um tom tão creme parecem brancas, refletindo a cor do céu solene. As areias parecem se alongar até o infinito, cobrindo até onde a vista alcança.

A chuva começa a cair.

Cai, e deixa marcas na areia intocada por pés humanos. As nuvens derramam seu peso sobre a areia, que queda-se, imóvel. Olhando assim, tão de passagem - eu estava dentro de um ônibus -, o mundo aparenta estar completamente vazio, todas as pessoas que restaram estavam no ônibus comigo.

Um mundo estagnado.

Imaginei a solidão de um mundo em que só existiriam as pessoas que lá estavam comigo. Imaginei se essas pessoas se sentiriam tão sós quanto eu. Imaginei a terra vazia. Segurei as lágrimas.

Ela não estaria nesse mundo. Não estaria porque não estava comigo. Ciente disso, não mais pude segurar.

O vidro do ônibus, úmido pela chuva, umideceu-se igualmente de lágrimas.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Azul

Minhas memórias dividem-se em cores, seguindo um padrão muito lógico - pelo menos para mim: são azuis as que me deixam tranqüila, beirando a melancolia. Amarelas, as que me causam desconforto, vontade de fugir, de esquecer. Vermelhas, as em que agi por impulso. Verdes, algumas que nunca consegui classificar muito bem.

Nunca entendi bem o porquê. As cores e os cheiros, não posso me esquecer dos cheiros. Dia de faxina tem um cheiro todo especial, mesmo antes da faxina começar. Dia de chuva também. Sinto quando ela chegou porque o cheiro ao meu redor muda. O cheiro da atmosfera parece mudar de tempos em tempos, e, por isso, sempre sei quando vou acordar resfriada no dia seguinte.

Sou uma pessoa olfativa e colorida. E por isso me pergunto porque raios a atmosfera lúgubre do andar inferior da Lapa tem cheiro, pra mim, de chuva. E é azul. Pelo menos na memória. Me faz me sentir nostálgica, senti que já estive lá antes logo da primeira vez em que pisei lá. Ou algum lugar bem parecido. É como se fosse um cantinho obscuro da minha memória, que é ativado apenas quando estou por lá.

Acho que minha memória tem vários cantinhos obscuros, com pequenos triggers que só funcionam em situações específicas que nem eu sei precisar quais são. Esse lugar parecido com a estação da Lapa, por exemplo. Eu não sei que lugar é esse. Não sei se é algum lugar no Rio - os pontos de ônibus da Rodoviária, por exemplo. Ou em Pernambuco - uma das muitas Estações de Integração. Ou se estive nesse lugar em meus sonhos. Só sei que é azul, muito azul. A luz é fluorescente, e, por isso, azulada. Ou talvez não tenha luz nenhuma: talvez seja azul por padrão, imutável.

Um lugar eternamente azul. E fico eu azul também, azul na minha solidão - esse lugar me transmite muita solidão -, azul no canal de transição de lugar vazio para lugar algum, azul-desespero, não de estar desesperada, mas desesperançosa. Imagino os portais do inferno de Dante azuis: Lasciate ogni speranza, o voi che entrate. E eu entrei, e mergulhei nessa imensidão azul que é a memória. E a esperança, esperança de descobrir que lugar é esse, ficou na porta, abandonada, retida, proibida.

E o ônibus azul passou, e eu entrei. E lá ficou a esperança, até que um dia eu retornasse...

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Pessoas estranhas

Adoro gente estranha. Gente estranha inspira, instiga, provoca as idéias que, de outra forma, correriam desarrazoadas por aí, afobadas e mal comportadas que são. Às vezes, é um trejeito, um tique nervoso que transparece sem que o observado se dê conta. De outras, é difícil precisar o que me desperta a atenção, mas sinto que há algo ali que valha a pena.

Ela usava camisa branca e calças pretas, mas seus contrastes não paravam por aí. Os pés descalços pareciam inchados, talvez por causa dos enormes saltos, que jaziam abandonados ao lado do banco em que estava sentada. Falava ao telefone e gargalhava, mas o riso morria em seus lábios - seus olhos permaneciam sérios, até mesmo marejados. Era uma menina chuvosa em um dia ensolarado. Ria, e mexia na barra da calça. Ria, e roía as unhas. Ria, mas era nítido que queria chorar.

Estava sentada como se no sofá de sua casa. Tão à vontade que, em dado momento, jogou-se para trás e deitou. Os cabelos louros, antes arremessados em seu rosto, agora espalhavam-se amarelados pelo banco amarelo da faculdade.

Parecia tão indefesa, tão carente de afeto, que me deu vontade de me aproximar para ouvir o que dizia. Não tive coragem. Temi que se afastasse, me achando estranha demais para merecer sua atenção.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Olhares

Me olhou com olhos de carência e pediu-me que fizesse algo que, sinceramente, eu não estava muito disposta a fazer, mas não pude dizer não. Recolhi minhas coisas e fui atender seu pedido, ainda que receosa. Me sentia constrangida, envergonhada, tímida. Era algo que eu estava acostumada a fazer, desde muito cedo, mas não com três pessoas ao mesmo tempo. Ainda mais três mulheres, aliás, três meninas, tão jovens.
Três pares de olhos me encaravam ansiosos. Não sabia o que fazer, não conhecia suas expectativas, não estava preparada. Permiti que guiassem o momento. Os olhares me seguiam, tão perdidos quanto os meus. Elas não queriam tomar o controle. Elas esperavam que eu as levasse, que eu ensinasse, que eu dissesse o que fazer. As rédeas da situação teimavam em fugir ao meu controle, e seus olhares tornavam-se reprobatórios, à medida em que o meu esquivava-se.
Conversamos um pouco. Olhos risonhos, quando o diálogo começou a fluir. Conversamos sobre muitas coisas: o dia-a-dia, namorados, livros, música, piadas. Ficamos à vontade, rimos, nos divertimos. Meu olhar não mais desviava dos delas. Senti confiança. Me senti segura. Dei a elas o que queriam, e elas quiseram mais, mas nosso tempo acabou. Ficou para a próxima.
Depois, encontrei-me com Michael, que me perguntou como foi a aula. "We just couldn't stop laughing", eu disse. Ele me olhou com interrogações nos olhos. Eu devolvi um olhar misterioso. As alunas passaram pela janela do RC e acenaram. "It was good, then. I guess.", ele disse. Também acho, teacher. Foi uma aula divertida. Mas, nem que me paguem o dobro do salário eu repito a dose semana que vem.

sábado, 25 de outubro de 2008

Kombi

Poucas coisas nesse mundo são mais românticas que namorar no banco do motorista de uma kombi no estacionamento do Habib's. E era isso mesmo que o casal fazia, despreocupado com a vida, numa noite de sábado. Ele, com o que a gente no sudeste costuma chamar de típico bigodão de porteiro nível épico. Ela, quase indistinguível, arremessada lânguidamente sobre o colo do parceiro.

Não quis acreditar quando me disseram. Tive que conferir por mim mesma, e lá fui eu, controlando a crise de riso iminente, passar do lado da janela do motorista. Foi uma breve passagem, mas o suficiente para ouvir, em uma voz sussurrante:

- Amigo... vá com calma que sou casada.

Acho que preciso ir mais vezes ao Habib's.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Algumas frases...

...só pra constar:

"Se toda a vida complexa de muita gente se desenrola inconscientemente, então é como se esta vida não tivesse sido." (Tirei do texto de Chklovski, haha. Concordo em todos os aspectos.)

"Education is an admirable thing, but it is well to remember from time to time that nothing that is worth knowing can be taught." (Oscar Wilde. Concordo em termos, mas adorei a construção.)

"A world fit for children is a world fit for everyone." (Não faço idéia de quem é o autor. Copiei do livro de uma aluna aqui no trabalho dia desses. Tenho pavor de crianças, mas não tem como não concordar plenamente com isso.)

domingo, 12 de outubro de 2008

Meu maior medo é nunca mais sentir medo.

Pois eu insisto em concordar com Roosevelt, quando ele diz que se deve, todos os dias, fazer aquilo de que se tem medo. De preferência, em momentos de tensão. E que se danem as mãos que se recusam a parar de tremer, o coração que esquece que deve seguir um ritmo pré-estabelecido para continuar funcionando - em vez de disparar feito um louco ou congelar de vez -, as maçãs do rosto que se aquecem e adquirem uma coloração totalmente diversa da habitual, e a vontade de se enfiar debaixo da cama e não sair de lá nunca mais.

Medo também é pathos. E já dissemos antes: o pathos é o que faz com que nos sintamos vivos. E Platão que se exploda, com toda sua frieza, sua pureza, sua perfeição utópica.

Não vou dizer que não seja um processo doloroso. É, e muito, especialmente se demorar muito tempo para juntar a coragem necessária para encarar o bendito de frente. Mas dói menos que se recolher, dia após dia, chorando com medo do medo. Este é, aliás, o pior dos medos: o medo de temer, o medo de ousar superar os temores.

Mas, uma vez que se consegue... As recompensas podem vir de diversas formas: mal-entendidos solucionados, um texto particularmente ousado e bem aceito, uma afirmação inesperada e inebriante.

Não tenha medo de chorar em público; não tenha medo de dizer que gosta de alguém; não tenha medo de provocar seus sentimentos e de, possivelmente, quebrar a cara em algum ponto do caminho. Não tenha medo de dizer que errou. Não tenha medo de acertar.

Mas, que fique bem claro: ainda tenho todo o respeito por medos de altura, baratas, palhaços, escuro, aranhas e fantasmas. Porque sem esses medinhos estúpidos - e freqüentemente irracionais -, que material teríamos para implicar com nossos amigos?

sábado, 11 de outubro de 2008

Idéias Íntimas (fragmento)

Ossian o bardo é triste como a sombra
Que seus cantos povoa. O Lamartine
É monótono e belo como a noite,
Como a lua no mar e o som das ondas
Mas pranteia uma eterna monodia,
Tem na lira do gênio uma só corda,
Fibra de amor e Deus que um sopro agita:
Se desmaia de amor a Deus se volta,
Se pranteia por Deus de amor suspira.
Basta de Shakespeare. Vem tu agora,
Fantástico alemão, poeta ardente
Que ilumina o clarão das gotas pálidas
Do nobre Johannisberg! Nos teus romances
Meu coração deleita-se... Contudo
Parece-me que vou perdendo o gosto,
Vou ficando blasé, passeio os dias
Pelo meu corredor, sem companheiro,
Sem ler, nem poetar. Vivo fumando.
Minha casa não tem menores névoas
Que as deste céu d'inverno... Solitário
Passo as noites aqui e os dias longos;
Dei-me agora ao charuto em corpo e alma;
Debalde ali de um canto um beijo implora,
Como a beleza que o Sultão despreza,
Meu cachimbo alemão abandonado!
Não passeio a cavalo e não namoro;
Odeio o lansquenê... Palavra d'honra:
Se assim me continuam por dois meses
Os diabos azuis nos frouxos membros,
Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.

(AZEVEDO, Álvares de IN: Poemas Malditos)

Ei, eu avisei que gostava de poesia "frufru".

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Kibes

Nesse mundo em que vivemos, faz-se qualquer coisa por um kibe. Até sair de casa de novo, oito e meia da noite, depois de um dia exaustivo. Achei que o cansaço houvesse me derrotado; a necessidade de um jantar me tirou, ainda que temporariamente, o peso dos ombros. E, na esquina da rua da lanchonete, eu vi o carro.

Vinha a toda pela rua. Parou na esquina mal iluminada, cantando os pneus, e de dentro dele saiu um homem, os olhos brilhando furiosamente com determinação. Bateu a porta, deu alguns passos até a esquina oposta, uma mão na cintura e a outra dando aquela ajeitadinha. Aliás, o que os homens tanto têm que ajeitar?, pensei. Será que as coisas não sabem se comportar sozinhas?

Chegou até a entrada do condomínio. Eu estava apreensiva. É um assaltante? Vai cobrar uma dívida de honra com um dos moradores? Olha, do jeito que ele não tira a mão do bolso, não é possível que ele esteja só se ajeitando. Aposto como vai sair uma espada dali. Como assim, não cabe uma espada? Claro que cabe, se o bolso for furado e ele não dobrar os joelhos. Não me importa que ele está andando normal, dobrando os joelhos e tudo, Cris, me deixa prestar atenção, estou sentindo cheiro de sangue no ar e isso ainda vai dar uma boa crônica.

Não, espere, ele está indo na direção do poste. Seria possível que ele iria fazer suas necessidades logo ali, no meio da rua, nem nove horas da noite ainda? Mas é muita falta de educação! Não, não grite "mijão". Não me envergonhe!

Sem tirar as mãos da frente de seu corpo, ele se posicionou do lado do poste. O que se faz numa situação dessas? Faz de conta que não viu nada? Fica por perto e começa a torcer, em voz alta, só pra deixar o mal-educado constrangido? Informa delicadamente que havia uma lanchonete a menos de dez passos e que, se ele pudesse se aguentar mais um pouco, poderia fazer isso num banheiro, com toda a privacidade do mundo? Senta no chão e ri da cara do sujeito?

Então ele bateu palmas e chamou o segurança, com quem começou a conversar. Perdi o interesse. Meu estômago me lembrou que não comia nada desde o almoço corrido antes do trabalho, e fomos providenciar os kibes.

Droga de noite sem graça.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Solitude

No dia em que minha vida se acabou, havia tantas nuvens que não se enxergava o céu. Era um teto cinzento, sem falhas, homogêneo. Parecia que o sol, ciente do que estava por acontecer, se recusou a mostrar sua face, por receio de derramar lágrimas e competir com a garoa fina que caía sobre a cidade.

Órfão muito cedo, sempre fui rejeitado pelas outras crianças. Sabe como elas são: ávidas pelo breve prazer de desmerecer tudo aquilo que é diferente do que estão acostumadas. E, não tendo uma mamãe nem um papai, eu era um prato cheio para suas implicâncias e pequenas crueldades. Crianças são criaturinhas malignas; em toda sua inocência, elas são as que melhor sabem onde enfiar um alfinete para que a dor seja maior. Logo aprendi a não confiar em ninguém.

Por isso, cresci sem amigos. Sempre tive medo dos seres humanos. Sempre tive medo da rejeição. E sempre tive medo da solidão, por contraditório que possa parecer. E assim, eu andava sozinho na cidade. Era tudo brilhante, colorido, cheio de vida; eu só enxergava o cinza do céu, as lentes dos óculos embaçadas e úmidas.

Através da névoa que só cobria meus olhos, eu a vi. Era um broto de rosa, em todo seu viço, perdido na aridez do deserto, do meu deserto particular. Era bela, mas de uma beleza distante, insensível, era uma rainha de gelo. E por sentir nela uma cumplicidade que nunca encontrei em nenhum outro ser humano, ignorei meus instintos de lobo solitário e tentei me aproximar.

Talvez fosse destino; talvez ela só estivesse entediada, e eu aparentasse ser uma boa maneira de passar o tempo. Mas consegui, por fim, ultrapassar a barreira de indiferença que ela ostentava, e, pela primeira vez, pude chamar alguém de "amigo". Nos tornamos muito próximos em muito pouco tempo, éramos quase que indivisíveis: nos completávamos, tão diferentes um do outro, tão iguais. A frieza era só no exterior: Marie, esse era seu nome, era de doçura inebriante, e sua alegria de viver contagiaria até mesmo o robô depressivo de um filme a que assistimos juntos. Eu me contentava em admirar, embevecido, esperando algum dia conseguir ser assim.

A admiração tornou-se algo mais forte. Fiquei confuso, perdido, nunca sentira aquilo e não sabia como lidar. A vontade era de fugir, de escapar daqueles olhos penetrantes que pareciam rir das minhas ilusões românticas. Mas algo me prendia, e acabei por me deixar ficar. Nunca tive coragem de me abrir. Medo, muito medo de que ela, espantada por tanta intensidade vir de mim, se afastasse e me deixasse sozinho novamente. Levei tempo demais para demolir meus muros; não queria que tivesse sido à toa.

Um dia, passeávamos juntos por um parque. Ela contava uma de suas histórias, ela tinha milhares de histórias para contar. Eu sempre ficava ouvindo, feliz só de gravitar ao redor dela. De repente, não sei como nem porque, ela olhou para mim. Era uma sonda vasculhando até o fundo de minha alma, era um buraco negro que me engolia, era algo de inenarrável. Vi passar uma sombra pelo olhar, antes tão cristalino. Soube que seria desmascarado.

Reencontrei minha velha conhecida, a rejeição. Tentei consertar as coisas, mas Marie achou por bem nos afastarmos, antes que acabasse por me magoar. Como se a separação não fosse a maior mágoa...!

Assim, voltei a vagar, sozinho, pela cidade cinzenta. Pra variar, as condições meteorológicas conspiravam contra mim: como se apenas para reforçar o drama do momento, começou a chover no momento em que a avistei. Feliz, sem mais nada do gelo que me encantou à primeira vista, nos braços de um homem. Estaquei, atordoado, sem vontade de mais nada.

Nem mesmo de sair do meio da rua, onde um carro me acertou em cheio. O cinza do céu, o cinza da cidade, as brumas dos óculos começaram a escurecer.

domingo, 21 de setembro de 2008

Pathos

Acho que entendo o ponto de vista de Platão quando ele diz que paixão é uma doença, e que esta deve ser evitada a todo custo.

Sob o efeito desse terrível mal, é quase impossível pensar em qualquer coisa que não o objeto de sua afeição. Mesmo quando se tem outras coisas para as quais direcionar esse sentimento. Mesmo quando se está fazendo algo que, sob circunstâncias "saudáveis", poderia ser a coisa mais divertida de todo o universo.

É um sentimento doloroso. De tanto pensar na pessoa amada, perdemos o sono, a concentração, o apetite, a identidade. Se cantamos, as canções são para ela; se escrevemos, tudo o que sai são declarações de amor. É algo tão brutalmente intenso que chega a doer fisicamente. Talvez a vida fosse melhor se tal sofrimento não existisse.

Mas, sabe? Concordo com Nanda quando ela diz que é um mal necessário para colorir nossas vidas. Aliás: é esse mal que nos faz sentir vivos. E, sem esse doce sofrimento, a vida não teria graça alguma. Portanto, a perfeição de Platão que vá às favas. Não quero um conforto apático; já disse Aldous Huxley, na citação mais perfeita de todos os tempos: "Quero Deus, quero poesia, quero perigo, quero liberdade, quero bondade. Quero pecado." E, principalmente, quero paixão, também. Em doses cavalares, sempre que possível, realizável ou não, não importando o quanto sofremos.

Afinal, apenas para citar outro de meus autores preferidos, de acordo com Dostoiévski em "Crime e Castigo": Sofrer e chorar significa viver. E ponto final.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Resgato

Terminei meu cigarro e fui adiantar minha vida. Parei para dois dedos de prosa com um dos meus muitos psicopompos de estimação, quando ouvi chamarem meu nome.

Ela corria desesperada da porta aos fundos do prédio. Olhava para mim, chorava, pedia ajuda, recomeçava a maratona. Logo entendi o desespero: seu bebê, ainda menor que minha mão, preso em um buraco.

Com medo de apanhar - afinal, independente da espécie, uma mãe desesperada vai lutar com unhas e dentes pela proteção do seu filhote -, me aproximei da criaturinha assustada. Uma coisinha minúscula e tremelicante, de enormes olhos azuis e sardas sarapintando o narizinho delicado. Não ofereceu resistência e, tão logo se viu alçada do chão, agarrou-se à minha camisa como se sua sobrevivência dependesse disso. Cruzei os braços, protetoramente, e a levei até sua casa.

A mãe, depois de ver que sua cria estava segura, foi cuidar de seus afazeres e deixou a criança sob meus cuidados. Tão logo esta se acalmou, graças à segurança de seu lar, fui para minha aula.

E foi assim que fiquei amiga de Pandora, a filhota de Felícia. Ambas moram na caixa de papelão na entrada do ILUFBA, e, da última vez que chequei, estavam indo muito bem, obrigada. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

O que você faria se só te restasse este dia...

Nunca fui de levar muito a sério essas coisas de fim do mundo. Por isso, quando Rafa veio comentar que "o mundo ia acabar por causa da experiência com o acelerador de partículas em Genebra", nem esquentei muito minha cabeça. Aliás, quando ele disse que nem conseguiu dormir direito à noite, ainda que tenha soado cruel, não consegui conter o riso.

Mas depois eu parei pra pensar no assunto. Impossível não lembrar daquela dinâmica logo na primeira aula, sobre o que faríamos se o mundo acabasse amanhã. Senti vontade de fazer um monte de coisa que sabia que não devia, porque, afinal, vai que acaba mesmo?

Me senti fútil, pois, sentada sozinha - ou melhor, com os gatos, amores da minha vida - na frente do ILUFBA, só conseguia me perguntar se, depois da morte, os gatos iam para o mesmo lugar que as pessoas. É estranho - o pensamento da morte me assalta e eu só penso se terei companhia dos meus animaizinhos preferidos no lugar pra onde vou.

Verdade seja dita, a idéia da eternidade sem gatos me parece mais dolorosa do que a idéia da eternidade sem amigos. Call me crazy, mas acho que, no lugar para onde a gente vai, prefiro ter um psicopompo* como companheiro a uma pessoa tão perdida quanto eu.

+++

Diga-se de passagem, até agora não entendi por que resolveram fazer essa experiência. OK, eu sei que é a tentativa de reproduzir o Big Bang. Mas... para quê? Por que arriscar a existência como um todo? Para comprovar a não-existência de Deus (ou da Deusa, ou dos Deuses, tudo de acordo com o gosto do freguês)? Para ter o poder de criar um novo universo em miniatura, e, assim, não apenas derrubar um mito como tornar-se seu substituto?

Alegam que é no melhor interesse da humanidade. Até onde sei, faço parte da humanidade (embora às vezes esteja mais para felinidade), e ninguém me perguntou nada. Com isso, me sinto como se fosse novamente criança, lá naquela época longínqua em que meus pais me matriculavam em aulas de dança contra a minha vontade, dizendo que era pro meu bem, quando tudo o que eu queria era seguir com minha vidinha numa boa.

Duas coisas aí me impressionam: o fato de a curiosidade humana não ter limites e a capacidade de certos pesquisadores de se acreditarem com poderes divinos.

E, bem, se todo o mais der errado, nos vemos em Summerland**!




*: Psicopompo: Animais que acredita-se terem o poder de fazer a travessia entre o mundo tangível e o mundo espiritual, funcionando como guias astrais. Alguns dos citados como tal são: gatos, corvos, lobos, cisnes, etc.

**: Summerland: De acordo com algumas vertentes da crença pagã, Summerland é o lugar para onde vamos após o final de um ciclo de vida. Crê-se que seja um local de profunda paz e beleza, para reflexão sobre o que aprendemos durante a vida que acabamos de abandonar, e preparação para as futuras reencarnações. Outras vertentes acreditam que seja o local para onde vamos após encerrar todos os ciclos de reencarnação, atingindo assim o auge da compreensão e iluminação espiritual.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Ai, bloqueios...

É impressionante: tenho duzentas mil idéias do que escrever e como escrever. Anoto tudo num caderno e fico ansiosa para chegar em casa, desenvolver o texto e, finalmente, postar.

Aí eu chego e... sabe as tais duzentas mil idéias? Não consigo achar uma que preste. Parece que só naquele momento em que eu tive a idéia é que eu poderia desenvolvê-la satisfatoriamente - em casa, relaxadas que são, elas se soltam, tiram os sapatos, arremessam o casaco na cadeira e acabam por perder o glamour.

Escrever não é difícil. Ter idéias sobre o que escrever também não. O difícil é convencer a idéia a se comportar...