terça-feira, 25 de novembro de 2008

Oh, André Julio, não me deixes! Jamais te deixarei, Josefa Ursulina!

Todo mundo gosta de um dramalhão mexicano, nem que seja só para rir dos limites da criatividade humana para nomes compostos. O que ninguém se dá conta é de que, às vezes, a novela - ou alguma situação típica desta - pode acontecer na vida de alguém bem próximo a você. Ou até mesmo na sua própria vida, como aconteceu comigo.

Era uma noite chuvosa e abafada de dezembro, no Rio de Janeiro. Todas as noites de dezembro no Rio de Janeiro tendem a ser chuvosas e abafadas, exceto aquelas que são só abafadas e sem uma única gota de chuva, mas essas são raras. Meu amigo, ex namorado e eterno inimigo ia viajar para Iguaba Grande, que de grande só tem o nome, uma cidadezinha na Região dos Lagos, para passar o natal com a família. Como eu não tinha absolutamente nada melhor para fazer, resolvi acompanhá-lo até a rodoviária, só para ter uma desculpa pra sair de casa.

Na volta, sentei no último banco do ônibus. Aqui cabe um aparte: apesar de ser proibido fumar em coletivos, no Rio, pelo menos nessa época, o tabagismo era tolerado se praticado apenas no último banco do ônibus e na janelinha. Então me sentei no bendito e acendi meu cigarro tão logo acreditei que ninguém fosse se aboletar ao meu lado para reclamar.

Só que alguém aboletou-se. Olhei para o lado e dei de cara com uma bela moça, de pele tostada pelo sol, olhos e cabelos cor de mel e trajes que pouco deixavam à imaginação. Era linda, embora me parecesse algo familiar. E tratei de usar o artifício mais à mão que tinha para puxar papo, não poderia perder a oportunidade de travar conhecimento com uma menina tão atraente sentada logo ali, do meu lado.

- Te incomoda a fumaça do cigarro?
- Claro que não! Só me incomodo se você não me emprestar seu isqueiro.

Ótimo. Já tinha de onde partir: ela era simpática, e não teria nojinho de mim só por eu fumar. Emprestei o isqueiro, e continuei na empreitada de arranjar assunto.

- E então, voltou de viagem ou está aqui a visita?
- Voltei de viagem. Estava na casa do meu pai, em M*.
- É mesmo? Que coincidência, meu pai também mora em M* (não quis mencionar o fato de que é o pai biológico, que nunca conheci. Achei que seria falar demais pra um primeiro contato.)
- É? Que legal! Qual seu nome?
- Aline. E o seu?
- Suzana.

Epa. Eu tenho uma irmã mais velha, uma das duas filhas de meu pai biológico, chamada Suzana. Quantas coincidências!

- E quantos anos você tem, Suzana?
- 21, e você?
- 16. (epa. Minha irmã é cinco anos mais velha que eu...)
- Legal. Então você tem família em M*, é? Talvez conheça meu pai. Ele era bem conhecido lá, foi até vereador. O nome dele é JCT*.
- Ah, conheço sim.

Ai, meus deuses. É, sabia que era coincidência demais. A idade, o nome, a cidade... Não percebi porque estava encantada com a beleza da menina: o rosto me era familiar por ela ser minha irmã. O mesmo formato de olhos, o mesmo nariz reto, a mesma cara de lua cheia. Só que muito mais bem cuidada, claro. E bronzeada.

Agora ela é quem queria puxar papo. Perguntou se eu gostava do The Doors, se bebia, se topava ir na Lapa com ela no final de semana seguinte... Concordei com tudo sem pensar muito, sem conseguir falar, sabendo que a voz sairia embargada.

Estava à beira das lágrimas, literalmente, e à menor ameaça de abrir a boca eu sabia que abriria junto o berreiro. Me sentia parcialmente feliz - afinal, conhecera minha irmã mais velha! - e parcialmente culpada - afinal, minha intenção era conhecer a moça no sentido bíblico -, e não sabia como reagir. Especialmente porque ela subitamente ficou interessada. Isso ou era louca, de ficar puxando papo e chamando para sair uma completa estranha que por acaso emprestou um isqueiro.

E no final de semana, fui para a Lapa, afinal. Disposta a contar tudo a ela, sem saber direito como. "Oi, tudo bom? Desculpa se eu pareci dar em cima de você, eu sei que não rola. Sabe como é, a gente é irmã por parte de pai..." ou talvez "Sabe, eu me dei conta de mais uma coincidência entre nós. Meu pai também foi vereador de M*... E também se chama JCT*!", ou um sem número de outras formas foram exaustivamente ensaiadas, e abandonadas. Acabei por decidir simplesmente seguir o estilo Darth Vader, e dizer "No, Suzana, I'm your sister", ou algo assim.

E não a encontrei. A bem da verdade, nunca mais a vi. E por isso guardo com tanto carinho essa lembrança fraterna.

Especialmente porque, até então, eu achava que isso de se interessar por alguém e depois descobrir que esse alguém é parente seu só acontecia em novela. Hoje em dia, não duvido de mais nada!

*: Os nomes foram ocultados para proteger a identidade das pessoas envolvidas.

2 comentários:

Aline Barbosa disse...

Geeente, que coisa incrível...

Não se deve duvidar de nada mesmo... Esse mundo é pequeno...
o.o

Tássia Pellegrini (Tanna) disse...

geeeente que absurdo! hahuauhauhauhuhaa

poxa, você escreveu tão bem, não dá vontade de parar de ler. Sabes realmente como começar e conduzir um texto xD

e, o melhor: foi real. O que o torna ainda mais impressionante e interessante.

Por que essas coisas não acontecem comigo? É tão extraordinária quem nem daria para escrever numa narração. As pessoas pesariam: "isso só acontece em livros mesmo!".