quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Azul

Minhas memórias dividem-se em cores, seguindo um padrão muito lógico - pelo menos para mim: são azuis as que me deixam tranqüila, beirando a melancolia. Amarelas, as que me causam desconforto, vontade de fugir, de esquecer. Vermelhas, as em que agi por impulso. Verdes, algumas que nunca consegui classificar muito bem.

Nunca entendi bem o porquê. As cores e os cheiros, não posso me esquecer dos cheiros. Dia de faxina tem um cheiro todo especial, mesmo antes da faxina começar. Dia de chuva também. Sinto quando ela chegou porque o cheiro ao meu redor muda. O cheiro da atmosfera parece mudar de tempos em tempos, e, por isso, sempre sei quando vou acordar resfriada no dia seguinte.

Sou uma pessoa olfativa e colorida. E por isso me pergunto porque raios a atmosfera lúgubre do andar inferior da Lapa tem cheiro, pra mim, de chuva. E é azul. Pelo menos na memória. Me faz me sentir nostálgica, senti que já estive lá antes logo da primeira vez em que pisei lá. Ou algum lugar bem parecido. É como se fosse um cantinho obscuro da minha memória, que é ativado apenas quando estou por lá.

Acho que minha memória tem vários cantinhos obscuros, com pequenos triggers que só funcionam em situações específicas que nem eu sei precisar quais são. Esse lugar parecido com a estação da Lapa, por exemplo. Eu não sei que lugar é esse. Não sei se é algum lugar no Rio - os pontos de ônibus da Rodoviária, por exemplo. Ou em Pernambuco - uma das muitas Estações de Integração. Ou se estive nesse lugar em meus sonhos. Só sei que é azul, muito azul. A luz é fluorescente, e, por isso, azulada. Ou talvez não tenha luz nenhuma: talvez seja azul por padrão, imutável.

Um lugar eternamente azul. E fico eu azul também, azul na minha solidão - esse lugar me transmite muita solidão -, azul no canal de transição de lugar vazio para lugar algum, azul-desespero, não de estar desesperada, mas desesperançosa. Imagino os portais do inferno de Dante azuis: Lasciate ogni speranza, o voi che entrate. E eu entrei, e mergulhei nessa imensidão azul que é a memória. E a esperança, esperança de descobrir que lugar é esse, ficou na porta, abandonada, retida, proibida.

E o ônibus azul passou, e eu entrei. E lá ficou a esperança, até que um dia eu retornasse...

2 comentários:

Aline disse...

Incrível a Lapa te dar essa sensação...

Se eu fosse descrever pessoalmente usando suas "técnicas", eu diria q é entre amarela e verde...
Mas enfim...

De uma certa forma, eu posso dizer q tenho umas sensações nostálgicas com o lugar mas isso se deve à minha infância, mto presente por lá...
Mas desde pequena, era um lugar angustiante pra mim...

Então... Nada disso vem ao caso... hauhauahaua

Adorei o texto... ;)

Tássia Pellegrini (Tanna) disse...

A lapa me lembra algum filem ou seriado de investigação ou ação. A lapa me lembra oliva.