terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Do nada e do vazio, nasceu o caos.

O céu azul-violáceo é um teto fosco, a redoma que sustenta nossos sonhos, tão sólido e indestrutível que desperta desejos insanos.

A cidade parece tão vazia, no seu vai-e-vem constante.

Essa cúpula provoca a chamada "síndrome de serafim". É uma vontade incontrolável de se empoleirar num lugar bem alto, o mais alto que puder, e observar o mundo lá de cima. É uma forma de se sentir acima de todas as pequenezas que preenchem nossas vidas. Além do bem, do mal e da neutralidade.

Eu gosto de dias assim.

Tudo parece tão melancólico, visto de cima. A cidade fervilha, todos são pequenas formigas agitadas, e, ao mesmo tempo, tudo parece estático. O tempo parou. É uma interminável reprise de dias que já se foram, uma tentativa desesperada de prolongar algo que já deixou de ser.

Em dias assim é que me sinto senhora do eterno nada que insisto em chamar de existência.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Contrastes

É o pálido trajado em negro.
Um desenho a nanquim na sulfite virgem.

É o masculino fragilizado, de traços e gestos suaves, vestes justas e formas delgadas.
O feminino rude, imperioso, senhor de palavras, atos e mundos.

A mancha carmesim no pergaminho virgem.
A beleza na decadência. A flor que escapa do bueiro.
O sujo na perfeição, o batom que macula os dentes impecavelmente brancos.

O mendigo louco tocando gaita de boca na porta do shopping.
O homem de negócios que observa o cavalete vazio no meio da madrugada do aeroporto.

O comum me entedia.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

The Quiet World

O mar está escuro, prenhe da tempestade que em breve há de desabar. As nuvens são de chumbo, contra um céu azul muito branco, muito cinzento. É como se o céu e as nuvens trocassem de lugar, trocassem de cor. O vento sussurra, suave como as carícias dos amantes prestes a serem surpreendidos; no entanto, logo torna-se agressivo, rude e cadenciado, como o ribombar dos tambores de guerra, e sopra para longe folhas, papéis, mágoas e medos.

A praia está vazia.

A praia está vazia, e eu não consigo parar de olhar para ela. As areias de um tom tão creme parecem brancas, refletindo a cor do céu solene. As areias parecem se alongar até o infinito, cobrindo até onde a vista alcança.

A chuva começa a cair.

Cai, e deixa marcas na areia intocada por pés humanos. As nuvens derramam seu peso sobre a areia, que queda-se, imóvel. Olhando assim, tão de passagem - eu estava dentro de um ônibus -, o mundo aparenta estar completamente vazio, todas as pessoas que restaram estavam no ônibus comigo.

Um mundo estagnado.

Imaginei a solidão de um mundo em que só existiriam as pessoas que lá estavam comigo. Imaginei se essas pessoas se sentiriam tão sós quanto eu. Imaginei a terra vazia. Segurei as lágrimas.

Ela não estaria nesse mundo. Não estaria porque não estava comigo. Ciente disso, não mais pude segurar.

O vidro do ônibus, úmido pela chuva, umideceu-se igualmente de lágrimas.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Ossos do ofício

Estava eu lendo um blog que eu conheci dia desses no trabalho, quando o guri de boné, recém saído da aula, chegou sorrateiramente por trás de mim.

- Ei, tia! - a criançada desenvolveu o hábito de me chamar de tia, só pra vingar tia Nanda e tia Eliana - Vai demorar muito aí?
- Você quer usar esse PC? - reparei que todos os computadores estavam ocupados.
- Quero, sim!
- É algo de útil, produtivo ou educativo?
- Não, é pra jogar.
- Então sim, vou demorar. Até umas 18h.
- Imaginei.

Agora me digam: depois de todas as broncas que eu, Michael e todos os outros professores damos nesses guris, isso é coisa que se diga? Mentisse dizendo que ia fazer trabalho da escola, sei lá. Ou será que sou uma pessoa tão izbezial que meus alunos não conseguem mentir pra mim me olhando no olho?

Na minha época, as crianças eram mais espertas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Ser ou não desejar

Quero um remédio para aliviar essas dores, sintomas habituais da doença que se chama vida.
Quero algo para apagar as chamas que existem em meus olhos, incinerando todo o bom senso.
Quero rasgar vestes, ventres, carne, sangue, alma.
Quero sufocar. Sufocar o grito entalado na garganta, sufocar o ócio, o ódio. A frustração que consome, corrói e envenena.
Quero o ser para não estar. Quero o esquecimento para não existir. Quero o existir para não ser.
Quero engolir o mundo, com todos seus espinhos e arestas. Quero sentir o sangue do esôfago rasgado aquecendo por dentro a parte de mim que congelou.
Quero verter todas as lágrimas que não chorei, e libertar todas as vozes que calei por temer que elas se voltassem contra mim.
Quero o impacto profundo com uma parede de concreto, vezes o bastante para que a consciência se esvaia.
Quero a escuridão do esquecimento.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A Metamorfose

A capacidade do ser humano de se adaptar sempre me impressionou, mas a falta de capacidade de se readaptar a uma condição previamente abandonada exibida por alguns espécimes impressiona muito mais.


Porque é comum ver pessoas que, ao conseguir um emprego melhor, por exemplo, imediatamente se acostumam ao conforto. Experimente tirar esse emprego da pessoa, retorná-la ao padrão de vida anterior. É um desespero só. Sentem-se incapazes de arcar com as despesas da própria vida. É como se esquecessem que já viveram de forma relativamente confortável pouco tempo antes.


O mesmo se aplica a alguns motoristas. Uma vez motorizados, aparentam não lembrar que já foram pedestres algum dia, e, como tal, detestavam ser quase atropelados ao atravessar a rua no sinal, ou tomar um banho de água da sarjeta em dias de chuva por causa de um apressadinho, ou mesmo não poder caminhar pela calçada porque algum mal educado a ocupou inteira com o carro.


A estes, a classificação de "ser humano" não mais cabe; tornam-se máquinas, máquinas de correr, buzinar e xingar a mãe alheia. E pobres de nós, que nunca sofremos tal transformação: a nós cabe fugir de tais instrumentos possuídos - refiro-me aos motoristas; os carros de nada têm culpa - como se nossas vidas dependessem disso. E dependem, o pior é que dependem.


Por isso não dirijo. Os fatos de não saber pilotar nada mais móvel que um fogão e não ter dinheiro pra comprar nem um patinete não influem nessa decisão. É o medo, o mais puro medo de sentir, em vez de um coração batendo no peito, o ranger de engrenagens mal lubrificadas. Juro.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Azul

Minhas memórias dividem-se em cores, seguindo um padrão muito lógico - pelo menos para mim: são azuis as que me deixam tranqüila, beirando a melancolia. Amarelas, as que me causam desconforto, vontade de fugir, de esquecer. Vermelhas, as em que agi por impulso. Verdes, algumas que nunca consegui classificar muito bem.

Nunca entendi bem o porquê. As cores e os cheiros, não posso me esquecer dos cheiros. Dia de faxina tem um cheiro todo especial, mesmo antes da faxina começar. Dia de chuva também. Sinto quando ela chegou porque o cheiro ao meu redor muda. O cheiro da atmosfera parece mudar de tempos em tempos, e, por isso, sempre sei quando vou acordar resfriada no dia seguinte.

Sou uma pessoa olfativa e colorida. E por isso me pergunto porque raios a atmosfera lúgubre do andar inferior da Lapa tem cheiro, pra mim, de chuva. E é azul. Pelo menos na memória. Me faz me sentir nostálgica, senti que já estive lá antes logo da primeira vez em que pisei lá. Ou algum lugar bem parecido. É como se fosse um cantinho obscuro da minha memória, que é ativado apenas quando estou por lá.

Acho que minha memória tem vários cantinhos obscuros, com pequenos triggers que só funcionam em situações específicas que nem eu sei precisar quais são. Esse lugar parecido com a estação da Lapa, por exemplo. Eu não sei que lugar é esse. Não sei se é algum lugar no Rio - os pontos de ônibus da Rodoviária, por exemplo. Ou em Pernambuco - uma das muitas Estações de Integração. Ou se estive nesse lugar em meus sonhos. Só sei que é azul, muito azul. A luz é fluorescente, e, por isso, azulada. Ou talvez não tenha luz nenhuma: talvez seja azul por padrão, imutável.

Um lugar eternamente azul. E fico eu azul também, azul na minha solidão - esse lugar me transmite muita solidão -, azul no canal de transição de lugar vazio para lugar algum, azul-desespero, não de estar desesperada, mas desesperançosa. Imagino os portais do inferno de Dante azuis: Lasciate ogni speranza, o voi che entrate. E eu entrei, e mergulhei nessa imensidão azul que é a memória. E a esperança, esperança de descobrir que lugar é esse, ficou na porta, abandonada, retida, proibida.

E o ônibus azul passou, e eu entrei. E lá ficou a esperança, até que um dia eu retornasse...