sábado, 9 de maio de 2009

Mais uma vez, é dia...

Amanhã é dia das mães.

Nunca entendi direito esse negócio de dia das mães. Quando eu era pequena, e essa data se aproximava, eu sempre ouvia as pessoas dizendo, "ah, mas dia das mães é todo dia"! Mesmo minha mãe parecia partilhar desta opinião. O problema é que, se eu não aparecesse com um cartãozinho que fosse, ela só faltava chorar. Não duvido que chorasse, mas não na minha frente.

Então, cresci. Com essa consciência meio paradoxal, de que diariamente eu deveria celebrar minha mãe, mas que um presentinho no segundo domingo de maio era essencial. Não importava se, durante todos os dias do ano, eu levasse uma flor pra casa ou escrevesse bem grande, numa folha de papel sulfite e com hidrocor colorida, que a amava. Dia das mães é sagrado, e, se eu fazia bastante no decorrer do ano, nesse dia em especial eu devia ir além da perfeição.

Há quase seis anos, sou órfã. Portanto, é o sexto dia das mães que chega, e eu nem fiz nada durante o ano para homenagear minha mãe. Também não preciso comprar um presentinho, teoricamente. Mas apenas em teoria.

Porque, no decorrer desses seis anos, ganhei várias mães. E é a elas que eu gostaria de prestar homenagem nesse dia, tão desnecessário, mas suficientemente simbólico.

Agradeço a minha tia Ilca, por ter me acolhido de imediato no momento mais difícil da minha vida. A "tia" Leila, que tomou em suas mãos a missão de me amparar emocional e psicologicamente na hora exata em que eu senti meu mundo desmoronar - ainda que tenha sido "minha mãe" por apenas uma tarde, nunca vou me esquecer. A Analucia, minha madrasta, por ter superado a má impressão que causei quando não passava de uma pestinha mimada, e ter estado ao meu lado quando o destino nos forçou a conviver - a ponto de termos chorado quando bati minhas asas recém abertas e fui voar pelo mundo.

A Ana Susana, por ter se disposto a compartilhar o teto comigo, mesmo quando eu não tinha muitas condições de contribuir, e por ter me ajudado tanto com questões de emprego, estudos, brigas conjugais - porque sogra também é mãe, às vezes mais que duas vezes. A Dona Wanda, que me dá remédio quando estou doente, me empresta a bengala quando torço o pé e nunca me deixa me sentir muito sozinha. 

A "tia" Arlete, que, com toda sua autoridade maternal - que agora se estende a mim, superando até a autoridade sogrística -, me proíbe de ir ao trabalho ou voltar pra casa quando chove muito forte, e insiste que eu coma mais um pouquinho porque "vocês estão muito magrinhas". A "tia" Eliana, que me abraça quando choro de saudades da minha mãe, me puxa as orelhas com jeitinho quando sabe que briguei com Taz ou que estou dando pouca bola pra faculdade e me incentiva a cada passo desajeitado que dou rumo a essa coisa inquietante que é escrever.

A Deusa, que, quando choro no escuro para que ninguém me veja, está ao meu lado, me faz cafuné e me ajuda a pegar no sono, me contando histórias de dias melhores que virão.

Enfim, a todas as mulheres da minha vida, porque toda mulher é um pouco mãe de seus amigos. Dia das mães também é dia das mulheres. Portanto, feliz dia das mães para todas nós!

(E eu espero que amanhã meus gatos, mais que gatos, meus filhos, me recebam em casa com um ronronar bem carinhoso.)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Jogo dos sete erros

Uma mancha incolor na camisa branca,
Uma mancha amarelada no sorriso limpo,
O inseto, mínimo, passeando na calçada recém-lavada,
O fio de cabelo branco solitário na massa negra,
O livro de capa amassada mas com cheiro de novo,
A marca da lágrima na maquiagem irretocável,
O traço triste na canção da alegria.
Por que sempre reparo no que está fora do lugar?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

O que você quer ser quando crescer?

Aproveitei que não tinha alunos agendados para hoje e resolvi passar a limpo algumas coisas do meu caderno de rascunhos do semestre passado. Uma de minhas colegas de trabalho estranhou, visto que as aulas só voltam daqui a duas semanas, e me perguntou o que tanto estudava. Espantada, me perguntou porque eu era tão aplicada. Sem pestanejar, respondi: quero ser professora. Se pretendo transmitir conhecimento, preciso estar segura desse conhecimento.

E aí me caiu a ficha.

Comecei a dar aulas há pouco menos de dois anos e meio, por precisar trabalhar e constatar que a única coisa que eu sabia fazer bem era falar inglês. E, até então, essa era uma carreira que nunca me passou pela cabeça seguir.

Sempre que me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, na época em que ainda me perguntavam dessa forma, eu dizia que queria ser jornalista. Ou escritora. Quando me perguntavam se gostaria de ser professora, fazia uma careta de desprezo. Hoje não me imagino longe do quadro, fora dessa rotina de preparar aulas e aplicá-las e acompanhar o desenvolvimento dos alunos.

Bem, ainda quero ser escritora. Mas acho graça notar que uma profissão que me desagradava tanto seguir, no passado, hoje se mostra como minha primeira opção. Da mesma forma, não consigo me imaginar trabalhando como jornalista, coisa que, desde a 5a série, era algo que eu almejava alcançar.

As pessoas mudam, amadurecem. Frequentemente abrem mão de seus sonhos de infância para viver uma vida mais rentável. Mas sempre se perguntam, e se tivesse sido de outra forma?

Percebi que sequer essa dúvida eu tenho. Num futuro um pouco mais distante, talvez ela surja. Mas não hoje, quando trabalho com o que amo, por mais mal remunerada que seja, por mais estressada que eu fique ao fim do dia.

O gosto pelas palavras me trouxe para Letras. O gosto por ensinar - descoberto a relativo pouco tempo - me trouxe onde estou hoje. Aonde mais essas duas coisas me levarão?

E você? O que queria ser quando crescesse?

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Monstro

Detesto caminhar pelas ruas de meu bairro sozinha depois que anoitece. Sempre fica algo no ar, algo que não sei bem descrever, mas que me causa uma impressão horrível.

Chamem de paranóia, mas sempre me sinto observada.

Esta noite não foi diferente. Minha escolta usual me abandonou à própria sorte, e lá fomos nós andando do trabalho para casa, apenas eu e meu anjo da guarda. Não fazia sentido pegar um ônibus, porque é só um ponto de distância. Demoraria mais do que os cinco minutos usuais.

Quando entrei na minha rua, a sensação começou.

É um formigar na nuca que sempre me aflige quando estou em uma situação de perigo iminente. E, ao dobrar na esquina, foi como se mil agulhas entrassem no meu corpo.

A rua estava escura, tão escura que mal enxergava os contornos das casas. Não sei dizer se realmente estava assim ou se era só minha imaginação.

Apertei o passo. E ouvi, distintamente, sons de passos atrás de mim, correndo sobre as folhas secas. Fui para o meio da rua, com medo das sombras da calçada. Um carro passou e me fez mudar de idéia. Voltei para a calçada.

Então um farfalhar me sobressaltou. Uma força maior que a minha me fazia entreabrir as pernas, senti algo atravessando. Corri.

Corri como se minha vida dependesse disso. Corri, e deixei naquela calçada escura meu nêmesis e o que sobrou de minha dignidade. Àquela altura, a possibilidade de ser atropelada não me incomodava mais. Morrer por um fusca seria mais honrado.

Afinal, nada pode ser mais vergonhoso que morrer devorada por um camundongo de rua.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Abusando do Politicamente Incorreto (ou Porque não vou pro céu)

Bial: Bem vindos, senhoras e senhores, à primeira edição do programa Big Brother Deficientes Mentais! Nossos participantes acabaram de entrar na casa, então, já é hora de dar uma espiadinha!

A câmera fecha em um rapaz de camisa verde que está esmurrando frenéticamente a porta.

Rapaz: Me tirem daqui! Eu quero sair! Eu quero minha mãe! AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH!

A câmera focaliza em uma mocinha de azul, sentada no canto, balançando-se em um ritmo lento, olhando para o nada e sem dizer palavra.

Novamente a câmera muda, e vemos um rapaz de laranja, parecendo bem feliz, correndo de um lado para o outro do gramado. De repente ele para.

Rapaz: Gente, acho que fiz cocô na calça! Quem vai me limpar?

(...)

***

Algum tempo depois, chega o momento do líder indicar alguém para o paredão

Bial: E agora, José? Quem será seu indicado para este primeiríssimo paredão da casa?
José: O Flávio, Bial.
Bial: Flávio? Mas não tem nenhum participante chamado Flávio!
José: Como não? Olha ele aqui! Do meu lado! Eu disse pra ele que só pode entrar um de cada vez no confessionário, mas ele insistiu em vir, porque não acreditou que eu fosse indicar ele. ... O quê? Que é, Flávio? Cala a boca, é minha vez de falar! (...)

***

E é chegada a hora de revelar o eliminado da semana...

Bial: E, com 100% dos votos, Marieta é eliminada, já que não tinha oponentes.

Câmera foca em uma mulher com aparência extremamente normal.

Bial: Marieta? Você não tem nada a dizer?
Marieta: ... ...AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHH!

Marieta levanta do sofá e sai correndo e gritando pela casa, destruindo tudo pelo caminho. Com o susto, um outro rapaz, até então igualmente quieto, pega uma faca afiada e finca na parede, a poucos centímetros da orelha esquerda de José.

Bial: Pô, produção! Quem foi que deixou uma faca afiada entrar na casa?

José faz cara de choro.

Bial: José, você está bem?
José: FLÁVIO! VOCÊ MATOU ELE, SEU ASSASSINO!
Bial: Hein?
José: FLÁVIO, FALA COMIGO, FLÁVIO! RESPONDE! Poxa, eu sei que disse que queria eliminar ele, mas não era assim... Náo era pra ser assim... Buááááááá Flávio, me perdoa!
Psicopata: Poxa... foi mal, cara...
José: Seu assassino! ASSASSINO! VOCÊ MATOU O FLÁVIO!

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Dessintonizada

Pois é, pois é. Depois de um longo recesso, é hora de voltar à vida adulta. Infelizmente.

Por mais que eu quisesse imitar a tia Eliana e escrever um texto metendo o pau no natal, não consegui encaixar na minha agitadíssima agenda de férias. Agitadíssima, claro, porque, com apenas 2 semanas de folga, é quase impossível arranjar tempo pra fazer tanta coisa quanto se gostaria.

Assim como também vou ficar devendo textos sobre reveillon e dias imediatamente anteriores, mesmo tendo coisas absurdas a contar. Até certas pessoas de saia eu vi. Mas, como não tirei fotos, ninguém vai acreditar.

Enfim. E hoje, um dia após o reinício da minha querida rotina - lembrem-se, virginianos amam rotina -, constatei que ainda não voltei muito bem ao normal. Meu ritmo e o ritmo do resto do mundo parecem não ter chegado a um acordo pacífico, e insistem em se digladiar o tempo todo. E, por fim, quando decidem ceder, o fazem ao mesmo tempo. Parece até coisa de desenho animado.

Porque, até a hora em que eu saí da Lapa para vir para o trabalho, era eu quem estava correndo demais. No melhor estilo "coelho de Alice", minha manhã inteira consistiu em correr para fazer as coisas e ter que ficar muito tempo esperando para poder terminar. Saí de casa 6h40; o ônibus só deu o ar da graça 7h20. Cheguei no médico - onde tinha consulta marcada para as 8h - 7h40; fui ser atendida 8h20. 

Isso tudo pra não falar na meia hora na porta do shopping Lapa esperando este abrir pra poder tomar café da manhã. Ou mais uns 15 minutos esperando a mocinha da banca de jornal voltar com meu troco. Ou chegar no trabalho da patroa 9h45 e ter que esperar por ela por cerca de 1h. Tudo bem, admito, essa espera eu estava psicologicamente preparada para suportar.

E o ônibus. Sempre os ônibus. Para concluir a parte "mim coelho-no-cio-depois-de-speed, você lesma-paralítica-em-câmera-lenta", cheguei na Lapa 12h30, certa de que daria tempo de chegar em casa, tomar banho com calma e vir para o trabalho fresca e saltitante. Era minha tentativa de fazer as pazes com o Tempo.

Que, claro, foi por água abaixo quando o velhinho sacana resolveu fazer com que meu ônibus levasse meia hora para aparecer. E se vingou correndo quando eu mais precisava que ele se arrastasse.

Cheguei em casa e ainda consegui a proeza de em 15 minutos tomar banho, me trocar, contar toda a epopéia temporal pro roommate, falar no telefone com a patroa, fazer cafuné nos gatos, arrumar a mochila e chegar ao trabalho a tempo. Eu em velocidade 0.5x, o tempo a 200km/h. Ainda assim, eu ganhei.

Chupa, Cronos!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

E a roda do ano continua a girar...

LadyMoon diz (23:48):
 Dee, fará alguma coisa pra comemorar o solstício de inverno?
Arielle diz (23:49):
 solstício de verão, you mean
 hemisfério sul, a roda gira ao contrário
LadyMoon diz (23:49):
 Sim sim... hehehehehe... fico lendo tanto inverno inverno inverno q ficou...
 hauhauahauhauahau
Arielle diz (23:49):
 uaheuhae
 não sei, não pensei em nada ainda
LadyMoon diz (23:49):
 Okey, dia q foi estabelecido q menino Jesus e mais uma porrada de divindades solares nasceram...
Arielle diz (23:50):
 ah sim
 também conhecido como, er, natal
LadyMoon diz (23:50):
 Olha soh q feio! Deixando de lado as próprias crenças!
 Eh... isso...
Arielle diz (23:50):
 não é deixando de lado, eu simplesmente optei por comemorar poucos sabbaths
LadyMoon  diz (23:50):
 natalis solis invictum... n sei de mais nada, soh isso...
Arielle diz (23:50):
 eu basicamente só comemoro beltane e samhain
LadyMoon diz (23:51):
 Ah tah... tadinho de menino Jesus....
 hauhauahuahauahauahau
 Foi deixado de lado por vc...
Arielle diz (23:51):
 bah, ele me deixou de lado também
 ele olhou pra minha cara quando eu nasci
 e disse
 "iiiihhh... essa daí eu deixo por conta de lilith!"
 e foi embora.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Do nada e do vazio, nasceu o caos.

O céu azul-violáceo é um teto fosco, a redoma que sustenta nossos sonhos, tão sólido e indestrutível que desperta desejos insanos.

A cidade parece tão vazia, no seu vai-e-vem constante.

Essa cúpula provoca a chamada "síndrome de serafim". É uma vontade incontrolável de se empoleirar num lugar bem alto, o mais alto que puder, e observar o mundo lá de cima. É uma forma de se sentir acima de todas as pequenezas que preenchem nossas vidas. Além do bem, do mal e da neutralidade.

Eu gosto de dias assim.

Tudo parece tão melancólico, visto de cima. A cidade fervilha, todos são pequenas formigas agitadas, e, ao mesmo tempo, tudo parece estático. O tempo parou. É uma interminável reprise de dias que já se foram, uma tentativa desesperada de prolongar algo que já deixou de ser.

Em dias assim é que me sinto senhora do eterno nada que insisto em chamar de existência.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Contrastes

É o pálido trajado em negro.
Um desenho a nanquim na sulfite virgem.

É o masculino fragilizado, de traços e gestos suaves, vestes justas e formas delgadas.
O feminino rude, imperioso, senhor de palavras, atos e mundos.

A mancha carmesim no pergaminho virgem.
A beleza na decadência. A flor que escapa do bueiro.
O sujo na perfeição, o batom que macula os dentes impecavelmente brancos.

O mendigo louco tocando gaita de boca na porta do shopping.
O homem de negócios que observa o cavalete vazio no meio da madrugada do aeroporto.

O comum me entedia.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

The Quiet World

O mar está escuro, prenhe da tempestade que em breve há de desabar. As nuvens são de chumbo, contra um céu azul muito branco, muito cinzento. É como se o céu e as nuvens trocassem de lugar, trocassem de cor. O vento sussurra, suave como as carícias dos amantes prestes a serem surpreendidos; no entanto, logo torna-se agressivo, rude e cadenciado, como o ribombar dos tambores de guerra, e sopra para longe folhas, papéis, mágoas e medos.

A praia está vazia.

A praia está vazia, e eu não consigo parar de olhar para ela. As areias de um tom tão creme parecem brancas, refletindo a cor do céu solene. As areias parecem se alongar até o infinito, cobrindo até onde a vista alcança.

A chuva começa a cair.

Cai, e deixa marcas na areia intocada por pés humanos. As nuvens derramam seu peso sobre a areia, que queda-se, imóvel. Olhando assim, tão de passagem - eu estava dentro de um ônibus -, o mundo aparenta estar completamente vazio, todas as pessoas que restaram estavam no ônibus comigo.

Um mundo estagnado.

Imaginei a solidão de um mundo em que só existiriam as pessoas que lá estavam comigo. Imaginei se essas pessoas se sentiriam tão sós quanto eu. Imaginei a terra vazia. Segurei as lágrimas.

Ela não estaria nesse mundo. Não estaria porque não estava comigo. Ciente disso, não mais pude segurar.

O vidro do ônibus, úmido pela chuva, umideceu-se igualmente de lágrimas.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Ossos do ofício

Estava eu lendo um blog que eu conheci dia desses no trabalho, quando o guri de boné, recém saído da aula, chegou sorrateiramente por trás de mim.

- Ei, tia! - a criançada desenvolveu o hábito de me chamar de tia, só pra vingar tia Nanda e tia Eliana - Vai demorar muito aí?
- Você quer usar esse PC? - reparei que todos os computadores estavam ocupados.
- Quero, sim!
- É algo de útil, produtivo ou educativo?
- Não, é pra jogar.
- Então sim, vou demorar. Até umas 18h.
- Imaginei.

Agora me digam: depois de todas as broncas que eu, Michael e todos os outros professores damos nesses guris, isso é coisa que se diga? Mentisse dizendo que ia fazer trabalho da escola, sei lá. Ou será que sou uma pessoa tão izbezial que meus alunos não conseguem mentir pra mim me olhando no olho?

Na minha época, as crianças eram mais espertas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Ser ou não desejar

Quero um remédio para aliviar essas dores, sintomas habituais da doença que se chama vida.
Quero algo para apagar as chamas que existem em meus olhos, incinerando todo o bom senso.
Quero rasgar vestes, ventres, carne, sangue, alma.
Quero sufocar. Sufocar o grito entalado na garganta, sufocar o ócio, o ódio. A frustração que consome, corrói e envenena.
Quero o ser para não estar. Quero o esquecimento para não existir. Quero o existir para não ser.
Quero engolir o mundo, com todos seus espinhos e arestas. Quero sentir o sangue do esôfago rasgado aquecendo por dentro a parte de mim que congelou.
Quero verter todas as lágrimas que não chorei, e libertar todas as vozes que calei por temer que elas se voltassem contra mim.
Quero o impacto profundo com uma parede de concreto, vezes o bastante para que a consciência se esvaia.
Quero a escuridão do esquecimento.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A Metamorfose

A capacidade do ser humano de se adaptar sempre me impressionou, mas a falta de capacidade de se readaptar a uma condição previamente abandonada exibida por alguns espécimes impressiona muito mais.


Porque é comum ver pessoas que, ao conseguir um emprego melhor, por exemplo, imediatamente se acostumam ao conforto. Experimente tirar esse emprego da pessoa, retorná-la ao padrão de vida anterior. É um desespero só. Sentem-se incapazes de arcar com as despesas da própria vida. É como se esquecessem que já viveram de forma relativamente confortável pouco tempo antes.


O mesmo se aplica a alguns motoristas. Uma vez motorizados, aparentam não lembrar que já foram pedestres algum dia, e, como tal, detestavam ser quase atropelados ao atravessar a rua no sinal, ou tomar um banho de água da sarjeta em dias de chuva por causa de um apressadinho, ou mesmo não poder caminhar pela calçada porque algum mal educado a ocupou inteira com o carro.


A estes, a classificação de "ser humano" não mais cabe; tornam-se máquinas, máquinas de correr, buzinar e xingar a mãe alheia. E pobres de nós, que nunca sofremos tal transformação: a nós cabe fugir de tais instrumentos possuídos - refiro-me aos motoristas; os carros de nada têm culpa - como se nossas vidas dependessem disso. E dependem, o pior é que dependem.


Por isso não dirijo. Os fatos de não saber pilotar nada mais móvel que um fogão e não ter dinheiro pra comprar nem um patinete não influem nessa decisão. É o medo, o mais puro medo de sentir, em vez de um coração batendo no peito, o ranger de engrenagens mal lubrificadas. Juro.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Azul

Minhas memórias dividem-se em cores, seguindo um padrão muito lógico - pelo menos para mim: são azuis as que me deixam tranqüila, beirando a melancolia. Amarelas, as que me causam desconforto, vontade de fugir, de esquecer. Vermelhas, as em que agi por impulso. Verdes, algumas que nunca consegui classificar muito bem.

Nunca entendi bem o porquê. As cores e os cheiros, não posso me esquecer dos cheiros. Dia de faxina tem um cheiro todo especial, mesmo antes da faxina começar. Dia de chuva também. Sinto quando ela chegou porque o cheiro ao meu redor muda. O cheiro da atmosfera parece mudar de tempos em tempos, e, por isso, sempre sei quando vou acordar resfriada no dia seguinte.

Sou uma pessoa olfativa e colorida. E por isso me pergunto porque raios a atmosfera lúgubre do andar inferior da Lapa tem cheiro, pra mim, de chuva. E é azul. Pelo menos na memória. Me faz me sentir nostálgica, senti que já estive lá antes logo da primeira vez em que pisei lá. Ou algum lugar bem parecido. É como se fosse um cantinho obscuro da minha memória, que é ativado apenas quando estou por lá.

Acho que minha memória tem vários cantinhos obscuros, com pequenos triggers que só funcionam em situações específicas que nem eu sei precisar quais são. Esse lugar parecido com a estação da Lapa, por exemplo. Eu não sei que lugar é esse. Não sei se é algum lugar no Rio - os pontos de ônibus da Rodoviária, por exemplo. Ou em Pernambuco - uma das muitas Estações de Integração. Ou se estive nesse lugar em meus sonhos. Só sei que é azul, muito azul. A luz é fluorescente, e, por isso, azulada. Ou talvez não tenha luz nenhuma: talvez seja azul por padrão, imutável.

Um lugar eternamente azul. E fico eu azul também, azul na minha solidão - esse lugar me transmite muita solidão -, azul no canal de transição de lugar vazio para lugar algum, azul-desespero, não de estar desesperada, mas desesperançosa. Imagino os portais do inferno de Dante azuis: Lasciate ogni speranza, o voi che entrate. E eu entrei, e mergulhei nessa imensidão azul que é a memória. E a esperança, esperança de descobrir que lugar é esse, ficou na porta, abandonada, retida, proibida.

E o ônibus azul passou, e eu entrei. E lá ficou a esperança, até que um dia eu retornasse...

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Oh, André Julio, não me deixes! Jamais te deixarei, Josefa Ursulina!

Todo mundo gosta de um dramalhão mexicano, nem que seja só para rir dos limites da criatividade humana para nomes compostos. O que ninguém se dá conta é de que, às vezes, a novela - ou alguma situação típica desta - pode acontecer na vida de alguém bem próximo a você. Ou até mesmo na sua própria vida, como aconteceu comigo.

Era uma noite chuvosa e abafada de dezembro, no Rio de Janeiro. Todas as noites de dezembro no Rio de Janeiro tendem a ser chuvosas e abafadas, exceto aquelas que são só abafadas e sem uma única gota de chuva, mas essas são raras. Meu amigo, ex namorado e eterno inimigo ia viajar para Iguaba Grande, que de grande só tem o nome, uma cidadezinha na Região dos Lagos, para passar o natal com a família. Como eu não tinha absolutamente nada melhor para fazer, resolvi acompanhá-lo até a rodoviária, só para ter uma desculpa pra sair de casa.

Na volta, sentei no último banco do ônibus. Aqui cabe um aparte: apesar de ser proibido fumar em coletivos, no Rio, pelo menos nessa época, o tabagismo era tolerado se praticado apenas no último banco do ônibus e na janelinha. Então me sentei no bendito e acendi meu cigarro tão logo acreditei que ninguém fosse se aboletar ao meu lado para reclamar.

Só que alguém aboletou-se. Olhei para o lado e dei de cara com uma bela moça, de pele tostada pelo sol, olhos e cabelos cor de mel e trajes que pouco deixavam à imaginação. Era linda, embora me parecesse algo familiar. E tratei de usar o artifício mais à mão que tinha para puxar papo, não poderia perder a oportunidade de travar conhecimento com uma menina tão atraente sentada logo ali, do meu lado.

- Te incomoda a fumaça do cigarro?
- Claro que não! Só me incomodo se você não me emprestar seu isqueiro.

Ótimo. Já tinha de onde partir: ela era simpática, e não teria nojinho de mim só por eu fumar. Emprestei o isqueiro, e continuei na empreitada de arranjar assunto.

- E então, voltou de viagem ou está aqui a visita?
- Voltei de viagem. Estava na casa do meu pai, em M*.
- É mesmo? Que coincidência, meu pai também mora em M* (não quis mencionar o fato de que é o pai biológico, que nunca conheci. Achei que seria falar demais pra um primeiro contato.)
- É? Que legal! Qual seu nome?
- Aline. E o seu?
- Suzana.

Epa. Eu tenho uma irmã mais velha, uma das duas filhas de meu pai biológico, chamada Suzana. Quantas coincidências!

- E quantos anos você tem, Suzana?
- 21, e você?
- 16. (epa. Minha irmã é cinco anos mais velha que eu...)
- Legal. Então você tem família em M*, é? Talvez conheça meu pai. Ele era bem conhecido lá, foi até vereador. O nome dele é JCT*.
- Ah, conheço sim.

Ai, meus deuses. É, sabia que era coincidência demais. A idade, o nome, a cidade... Não percebi porque estava encantada com a beleza da menina: o rosto me era familiar por ela ser minha irmã. O mesmo formato de olhos, o mesmo nariz reto, a mesma cara de lua cheia. Só que muito mais bem cuidada, claro. E bronzeada.

Agora ela é quem queria puxar papo. Perguntou se eu gostava do The Doors, se bebia, se topava ir na Lapa com ela no final de semana seguinte... Concordei com tudo sem pensar muito, sem conseguir falar, sabendo que a voz sairia embargada.

Estava à beira das lágrimas, literalmente, e à menor ameaça de abrir a boca eu sabia que abriria junto o berreiro. Me sentia parcialmente feliz - afinal, conhecera minha irmã mais velha! - e parcialmente culpada - afinal, minha intenção era conhecer a moça no sentido bíblico -, e não sabia como reagir. Especialmente porque ela subitamente ficou interessada. Isso ou era louca, de ficar puxando papo e chamando para sair uma completa estranha que por acaso emprestou um isqueiro.

E no final de semana, fui para a Lapa, afinal. Disposta a contar tudo a ela, sem saber direito como. "Oi, tudo bom? Desculpa se eu pareci dar em cima de você, eu sei que não rola. Sabe como é, a gente é irmã por parte de pai..." ou talvez "Sabe, eu me dei conta de mais uma coincidência entre nós. Meu pai também foi vereador de M*... E também se chama JCT*!", ou um sem número de outras formas foram exaustivamente ensaiadas, e abandonadas. Acabei por decidir simplesmente seguir o estilo Darth Vader, e dizer "No, Suzana, I'm your sister", ou algo assim.

E não a encontrei. A bem da verdade, nunca mais a vi. E por isso guardo com tanto carinho essa lembrança fraterna.

Especialmente porque, até então, eu achava que isso de se interessar por alguém e depois descobrir que esse alguém é parente seu só acontecia em novela. Hoje em dia, não duvido de mais nada!

*: Os nomes foram ocultados para proteger a identidade das pessoas envolvidas.

domingo, 23 de novembro de 2008

Eles não prestam

"Ei, gostosa! Vai ignorar? Você não gosta de rola não? Olha só, gente, ela é sapata!"

É claro, faz todo o sentido do mundo. Se preferimos ignorar um comentário chulo desses, a única explicação plausível é que não gostamos de homem. O mau gosto do que foi dito não tem relevância alguma nessa questão.

Oh, não, a "elogiada" preferir passar uma tarde inteira comendo pregos com molho de arsênico não tem nada a ver com o caso. Se fez cara feia, é porque é homossexual. Como se a opção sexual de alguém tivesse algo a ver com a situação como um todo.

Nem vou entrar no mérito do absurdo que é ouvir uma patacoada dessas em pleno século XXI. Do ridículo que é o cidadão afirmar uma coisa dessas como se fosse a pior coisa que ele poderia dizer, numa época em que a homoafetividade é tratada com tanta clareza até mesmo na mídia que costumava fazer tanto escarcéu -comparem o casal de Torre de Babel com a personagem de A Favorita, hã hã. 

Tá aí. Maldito espírito da escada. Dá vontade de olhar pra cara do sujeito e dizer, "ei, isso é o melhor que você pode fazer? Não quer dizer que minha mãe é gorda também?". Ou então, "Se você é um exemplo de homem, desculpe, mas prefiro pizza mulher".

Porque, gente, isso parece o tipo de birrinha que crianças de 8a série fariam. Juro. Aconteceu de certa vez na 8a série um menino me chamar de sapatão (é, sapatão mesmo, não lésbica, não gay: SA-PA-TÃO. E eu calço 37, hein...) só porque não quis ficar com ele. Não existe mais seletividade, é isso? É tipo, se caiu na rede é peixe? Se o cara tá me dando o privilégio da atenção dele eu devo me resignar e topar, sem livre arbítrio? Chauvinismo voltou à moda e ninguém me avisou nada?

Graças aos deuses o ônibus foi embora logo. Se a situação durasse mais, não sei o que iria fazer. Acho que perderia de vez toda a fé na humanidade.

Depois dessa, só tenho certeza de uma coisa: que saudades da menina do PUXA!

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Observando pessoas

Foi tudo que apreendi do lugar onde estava: era loira e usava rabo de cavalo. Uma miríade de presilhas multicoloridas pontuava o mar dourado, retendo as vagas mechas que insistiam em portar-se de forma mais rebelde. Nas orelhas, pequenos dragões de prata bailavam conforme os movimentos de seu corpo. Delicadas flores lilases adornavam sua nuca, indeléveis. Camiseta preta e óculos completavam o quadro do meu campo de visão: ela estava de costas para mim, ou antes, eu sentava atrás dela.

Suas mãos remexiam em uma sacola de plástico que repousava em seu colo, até produzirem um arco com orelhas de oncinha. E um rabo de oncinha. Com bolinhas em uma das pontas. A sacola tinha um logotipo, que logo entrou em meu campo de visão: provinha de uma sex shop.

Meu ponto chegou, e eu desci do ônibus. Mas nunca deixarei de me perguntar: o que leva uma pessoa a inspecionar suas compras, compras dessa natureza, dentro de um Praia do Flamengo-Lapa, às 8h15 da noite?

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Redenção

Ó chuva
Caia sobre este rosto pálido
Cálido das lágrimas que não pode verter.

As lágrimas celestiais
Purificam o mundo nublado
Que tornem-me pura também!

Que purifiquem minha alma
E lavem estas lágrimas
Que mancham meus olhos, lábios e gestos.

Até que as névoas do dia cinzento
Dissolvam-se em um mar de luz
Que inunde as ruas: o dia está lindo.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Love Story

No entrecruzar de olhares, um sorriso tímido que julgava entregar seus sentimentos, mas que, na verdade, era interpretado como mera simpatia.

No meio do tumulto, um abraço recebido com estranhamento, um abraço que fugiu totalmente ao padrão. Um abraço desejado, ainda que não soubessem.

Lábios de pétalas de rosa abrem-se em um sorriso antes apenas imaginado. Uma conversa. Uma conversa havia muito esperada, uma conversa que precisou de toda a coragem do mundo.

E o dia chegou e as nuvens foram embora.

As mãos se buscam, quase que por instinto. Um abraço, já sem tanto estranhamento. Ternura. Fugas.

E, assim, o que antes era "impossível" agora é "para sempre". E ainda não é desta que a morte as separará.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

No escurinho do cinema...

Nada mais clichê que ir ao cinema com namorado ou paquera. 

Um amigo meu ocasionalmente me aborda, todo empolgado, para contar que vai ao cinema no dia tal com fulana, sendo fulana a paquerinha da vez. Poxa, que bom! E qual a grande novidade por trás dessa notícia?  Mas essa é a novidade. É? Então tá.

Particularmente, nunca gostei muito de ir ao cinema acompanhada, por quem quer que fosse. Principalmente não namorados ou rolos. Gosto de prestar atenção nos filmes e, do jeito que os ingressos andam caros, me sinto lesada caso não consiga fazê-lo. Como tenho o attention span de uma samambaia plástica, amigos tendem a me distrair. E paqueras ou namoros-em-fase-inicial tendem a alterar o foco de atenção,  ainda que por excelentes motivos, de forma ainda mais incisiva e profunda, trocadilhos à parte. 

Sempre me perguntei porque tamanha empolgação em ir ao cinema com seus parceiros. Tudo bem, é escurinho. OK, as outras pessoas têm mais no que prestar atenção. Mas ainda é um local relativamente público, e gente fofoqueira existe em todo lugar. Especialmente quando a gente não quer.

Por tudo isso, me surpreendi quando me vi ansiosa por ir ao cinema pela primeira vez com minha "pessoa especial". Mesmo temendo não conseguir assistir o filme direito - para piorar, iríamos com amigos - não cheguei a me importar muito. Confiei nela, confiei em mim, e não me decepcionei. Nem me arrependi.

Com toda a minha amargura de cinéfila, tinha me esquecido do quão agradável pode ser asssitir um filme no cinema bem agarradinha. E, agora que lembrei, espero nunca mais esquecer de novo - é o tipo de coisa que merece ser feita sempre que possível.